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TEMPLO DE ESTUDOS MAÇÔNICOS
Sáb, 10 de Julho de 2010 10:30

ROMPENDO O SILÊNCIO

Helio P. Leite

10.07.2010

A transmissão do conhecimento iniciático e da tradição maçônica indivíduo a indíviduo – do mestre ao ouvido do discíplo – numa sociedade assaltada pela ciência e estigmatizada pelo materialismo consumista, é algo incomum ou mesmo praticamente impossível, dada a escassez de mestres da tradição, pobreza dos rituais e práticas amorfas dos princípios maçônicos intra e extra corporis. Cada maçom, loja, rito e potência e, como já disse alhures, um universo à parte no contexto da universalidade maçônica. Assim, o conhecimento e a tradição se esvaem à medida em que maçons, sem mestres da tradição como guias, aprendem e conhecem cada vez menos do muito que deveriam conhecer e aprender. Toda cultura tem mitos e histórias e também limites. Reconheço que existe (existiu e existirá) em sessões de lojas, reuniões de potências e encontros de maçons: momentos marcantes; discursos arrazoados; conversações edificantes; eloqüentes argumentos expositivos; criteriosas seleções e arranjos de frases e palavras na exposição de temas sobre o fausto maçônico; chamamentos à ordem; e, ou mesmo, conscienciosa reflexão formativa e instrutiva, e, também, muito bé-a-bá e riquíssimo nhem-nhem-nhém. De igual modo, não posso deixar de reconhecer que no hiperespaço da Maçonaria moderna, existem (existiu e existirá) maçons comprometidos com a erudição e com a tradição. Por outro lado, não posso desconhecer que circula em livros, revistas, na imprensa maçônica e na rede mundial de computadores: bons artigos; leituras prazerosas;estudos de casos, ou mesmo publicações de palestras e diálogos que merecem nosso respeito, admiração e sincero reconhecimento. Mas isto, forçosamente, não supre a lacuna da instrução maçônica em loja e nem mesmo contribui para o desenvolvimento coletivo dos membros da Arte Real.

 

Ser e ter mestres instruídos nos mistérios maçônicos em lojas pode ser considerado uma dádiva do Grande Arquiteto do Universo, vez que todo e qualquer esforço para constituir e formar mestres é como, guardadas as devidas proporções, voar sem ter asas, e a tarefa, em si, é como um inexperiente aprendiz pilotando um avião de grande porte. Para formar mestres da tradição ou ensinar a voar sem asas é preciso muita paciência e investimentos sócio-culturais-investigativos, portanto, muito difícil. No segundo caso, sem levar em conta as dificuldades do vôo, o aprendiz precisa imprimir um impulso inicial muito forte para fazer o avião decolar e um freio especial para fazê-lo pousar com tranqüilidade e firmeza na pista do conhecimento maçônico. E é de se considerar, ainda, os passageiros, que selecionados a dedo entre os iniciados, serão pouquíssimos, vez que nem todos demonstram interesse em embargar em aventuras, e outros nem mesmo conseguem embarcar e por isso não alçam vôo. Como no processo de seleção genética de Darwin, só uns poucos passam de uma a outra dimensão. Talvez, por isso, seja necessário pensar um Projeto Manhattan para a Maçonaria.

A idéia de um Projeto Manhattan para a Maçonaria pode, a princípio, não merecer a melhor acolhida por conta do nome e da resposta que o mundo conhecer em Alamogordo, Hiroshima e Nakasaki, mas o nome é o que menos importa, importante mesmo é a possibilidade de poder avaliar a inexistência e a não-formação de mestres da tradição no plano macro, e no plano micro. Avaliar, por exemplo, o ponto de “perdas e ganhos” com o entra-e-sai de maçons na Ordem, e neste particular valeria a pena discutir até mesmo as tentativas de minimizar a questão sem valer-se de reducionismos tipo: “a maçonaria não entrou nele; não era talhado para a ordem; não era um bom maçom,etc. e reticências”, ou mesmo analisar por que quando retornam são glamorosamente acolhidos com galanteios e ou encômios. Mas, retornando ao tema central, acredito que a grande contribuição desse projeto seria poder (re)pensar e (re)formular as bases do pensamento maçônico e as estruturas da Maçonaria para adaptá-la a era pós-moderna e da “revolução humana” em face as conquistas científicas.

À primeira vista, pensar em reforma da Maçonaria para torná-la pós moderna pode, igualmente, não soar muito satisfatoriamente aos ouvidos dos irmãos mais conservadores, ou mesmo para os que consideram as muitas questões paralelas a serem resolvidas antes da batida final de malhete. Para o historiador John J. Robinson, “ uma das mais fortes discordâncias entre os maçons, de hoje é a questão da mudança” (A Senda de um Peregrino, p.159). Entrementes, acreditando na capacidade evolutiva da Ordem e na ascese do homem-iniciado maçom, considero que as questões tidas por paralelas poderão servir como variáveis ocultas ao projeto, ou podem, francamente falando, serem deixadas ao largo, para que os eventos a serem discutidos sejam garantia ou passagem somente de ida para uma Maçonaria nacional, efetivamente, pós-moderna. O fato é que vivemos um cenário que pode transformar a Franco-Maçonaria para além das nossas vontades, mesmo que muitos prefiram a rotina das nossas vontades, mesmo que muitos prefiram a rotina e as regras doutrinárias de 1717.

Abro um parêntese para trazer a colação o pensamento de três homens que me inspiraram a escrever esse artigo. Primeiro, rendo homenagens ao professor Michio Kaku que com sua magistral obra “Visões do Futuro” demonstra que “nenhuma pessoa sozinha pode forjar o futuro”. Depois , a Frei Beto, que com muita propriedade aponta que “a vida é um jogo de sobrevivência” e que “entre milhões de espermatozóides em busca de aconchego do óvulo, um o consegue. Este um é você, sou eu, e todos os bilhões de habitantes deste planeta. Todos nós sorteados pela loteria biológica” (Frei Beto, A morte não manda aviso, in Correio Braziliense, 05/06/09, p.19). E, por fim, a Darwin, que se manifestou dizendo: “Acreditando como eu acredito que o homem num futuro distante será uma criatura muito mais perfeita do que é hoje, é intolerável pensar que ele e todos os outros serem conscientes estão condenados à total extinção depois de um progresso tão lento e persistente” (Rothman, Tony, citando Charles Darwin, in Revista Discovery, julho de 1987, p. 87). E, por óbvio, ao registro mental, impressionante, do avião A330-200 da Air France, em 31/05/2009, e aos 228 passageiros do vôo AF-447 (Rio de janeiro/Paris). Fecho parênteses.

Hoje, a hipótese atômica retornou à cena e a ameaça da bomba nuclear tornou-se novamente uma realidade assustadora, e entre as várias e fascinantes excussões de que o futuro nos poderá reservar, a bomba estará presente. E muitas das instituições sócio-culturais, como a Maçonaria, ausentes. Não me assusta a idéia de cidade superpovoadas, ameaças hiperespaciais, seres alienígenas, internet quântica, identidades culturais estranhas e diferentes em ambientes plenos de dualidades, filhos cibernéticos, ciberborgs, livros e leituras em telas multidimensionais, realidades virtuais, espaços ultraglobalizados ou outras conquistas científicas, sociais e culturais nos anos vindouros. Assusta-me pensar na não-inserção da Ordem Maçônica, ou da ordem Rosacruz, Ssociedade Teosófica e outras no mesmo naipe no contexto do futuro desenhado pela ciência, quaisquer que sejam as evoluções que os dias futuros nos reservem. Dói só de imaginar que nós, maçons da atualidade, selecionados pela loteria genética e pelo processo iniciático não estejamos preparando o futuro da ordem; não estejamos preparando nosso próprio futuro: não estejamos caminhando na estrada referida por Darwin para um amanhã diferenciado, sendo por isso, intolerável pensar que depois do lento progresso pelo qual passamos nestes últimos trezentos anos, estejamos condenados a extinção, por omissão minha, ou sua, isto é nossa.

Irmãos! Ima nova década, a segunda do século XXI, anuncia seus resplendores sem trombetas apocalípticas. Estejamos alerta. Saiamos do clasulo e proporcionemos à sociedade a felicidade que tantos almejam. Façamos tudo o que pudermos fazer enquanto temos tempo. Falar menos, fazer mais pelo futuro da instituição pode ser o mote. A retomada da luta pelo aperfeiçoamento dos costumes é uma regra que pode passar de uma a outra década, como tem sido feito nesses três últimos séculos. As nossas lei morais, costumes e tradições, e a ética maçônica são regras que em oposição ao desregramento dos costumes e à crise ética, e à soma dos prazeres físicos e consumerístas, podem ser reconduzidas às décadas seguintes. Os princípios da fraternidade e do amor universal aos nossos irmãos também pode passar incólume de uma a outras décadas. Mas, precisamos repensar suas práticas e aplicações às realidades diferentes à nossa na atualidade.

E, quantos de nós nos apercebemos que estamos vivendo uma época de transformações na Maçonaria e na sociedade como um todo? Alguns dirão que não somos obrigados a redefinir nosso papel social, outros dirão que em time que está ganhando não se mexe, ou que não sofremos perseguições (a exceção, em alguns casos, pelos próprios maçons. Casos há em que nossos maiores inimigos são os nossos próprios irmãos dentro da ordem) de qualquer natureza, portanto, não temos que ter motivos para preocupações. Reconheço que não somos privados de uma vida digna e que partilhamos de uma existência plena de bens infinitos tais como: liberdade, igualdade, fraternidade, sabedoria, altruísmo e espiritualidade. Mas reconheço, e proclamo que precisamos compartilhar com os menos afortunados ou com a sociedade na divina proporção das nossas capacidades os bens infinitos de que dispomos. Reconheço e proclamo que o destino humano continua fadado a ser fruto do livre-arbítrio de alguns. Por isso, temos que decidir em que medidas e proporções queremos projetar nossa ordem e moldar o nosso futuro.

Irmãos! Creatio ex nihilo. Nada se cria do nada. Tudo o que existe, Em algum momento, foi pensado e criado por alguém e transformado por outros. A nossa Ordem, creio eu, precisa estabelecer novo marco, novo recomeço, na postura frente à sociedade profana. A minha proposta é o estabelecimento de um projeto para (re)pensar a maçonaria e (re)inseri-la no contexto da nova Ordem Mundial e a esse projeto denominei “ Projeto Manhattan para a Maçonaria”.

Luiz Gonzaga da Rocha

Última atualização em Sáb, 10 de Julho de 2010 10:25
 
Comentários (1)
1 Ter, 13 de Julho de 2010 05:26
Gustavo M. B. Fondello
O Ir.'. tem toda a razão quando diz que precisamos de um novo recomeço frente à sociedade profana mas, acredito eu, que deveríamos primeiro arrumar a nossa casa, a nossa Maçonaria, começando pelas Lojas. Nós não temos didática. Nossos IIr.'. precisam buscar sózinhos pelo conhecimento que infelizmente esta comprometido pelos inúmeros autores, cada qual com uma visão diferente. O apoio dos Mestres é imprescindível, mas hoje nossos Mestres não passam de homens que, na maioria, ostentam Graus sem merecimento; que sob a alegação da não revelação dos conhecimentos pertinentes aos chamados Graus, se negam a dar orientações e até mesmo a apresentarem Trabalhos nas Lojas ( o Ir.'. já presenciou a apresentação de uma peça de arquitetura de um desses IIr.'. em Loja, que não seja a extraída de um livro ou de um trabalho apresentado por outro autor ? eu não ).
A nossa Ritualística é menosprezada pelas Potências. Nossos Rituais são constantemente auterados e cada vez menos elaborados, sem explicações razoáveis.
A filosofia maçônica não entra nos ensinamentos de grande parte das Lojas ( falo da filosofia da prática, do convívio entre IIr.'., do respeito, dos deveres e obrigações de um maçom ).
Para que possamos enfrentar o mundo profano, precisamos antes nos olharmos no espelho, sem demagogia, com sinceridade e fazermos uma introspecção, a Loja é o nosso reflexo assim como a Maçonaria é o nosso reflexo perante o mundo profano.
Meu Ir.'., assim como você, eu também tenho esperança de dias melhores, de termos em nossos quadros IIr.'. um pouco mais humildes, que aceitem dialogar, que respeitem as opiniões e principalmente os trabalhos apresentados por autoria própria ( com a visão particular ) nas Lojas. Por acaso, o Ir.'. já apresentou algum trabalho no T.'. de EEst.'. sem mencionar a fonte de pesquisa ? experimente, muito provavelmente você será taxado de achista, a menos é claro se o Ir.'. for algum autor de livros.
Com um Tempo de Estudos reduzido a míseros quinze minutos, as nossas Lojas estão se tornando simples agremiações festivas, sem falar é claro naquelas em que os AApr.'. não podem se manifestar e o que ouvem constantemente dos MM.'., após a apresentação de algum trabalho. é: belo trabalho, gostaria de ter uma cópia; não ouvem nenhum comentário complementar ao assunto ou alguma crítica construtiva, simplesmente porque eles, os mestres, desconhecem o assunto mais profundamente e isto ocorre por falta de interesse e de incentivo enquanto AApr.'. e CComp.'. e depois que passam a Mestre acreditam que não precisam mais se preocupar em estudar pois são raras as Lojas que solicitam aos seus MM.'. a elaboração e apresentação de algum trabalho.
Desculpe-me pelo desabafo, a sua luta é digna e tem o meu apoio, espero que com você encabeçando nós consigamos formar uma corrente e levar adiante este seu projeto.
Com respeito e admiração, um Tr.'. Frat.'. Abr.'. deste seu Ir.'.
Gustavo M. B. Fondello

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