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Sex, 12 de Fevereiro de 2010 10:34

GRAVIDEZ, INTERRUPÇÃO INVOLUNTÁRIA

Considerada comum, a perda do bebê no início da gravidez deixa na gestante um forte sentimento de desamparo e culpa, muitas vezes incompreendido por médicos e até por familiares. Especialistas destacam a importância de viver o luto antes de uma nova gestação

Helio P. Leite

12.02.2010

Quando se aceita de coração aberto o desafio de ser mãe, a fatalidade de um aborto espontâneo vem seguida de sentimentos de perda e impotência nem sempre compreendidos pela própria mulher e por aqueles que a cercam. Embora seja considerada comum na medicina, já que uma em cada quatro gestações não vai adiante, existe um silêncio com nuances de tabu em torno da interrupção involuntária da gravidez. Os médicos muitas vezes menosprezam a situação e quase nunca a tratam com a devida sensibilidade. A família e os amigos não tocam no assunto. O sofrimento, geralmente, é vivido de forma solitária. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica como aborto espontâneo a perda do feto por causas naturais antes da 22ª semana de gestação. Estudos sugerem que de 20% a 30% das mulheres grávidas apresentam algum sangramento ou cólica pelo menos uma vez nesse período de gestação. Aproximadamente 50% desses episódios acabam em interrupção da gravidez por fatores relacionados a anomalias cromossômicas. São elas as responsáveis por má-formações que o próprio organismo se encarrega de eliminar.

Das perdas involuntárias ocorridas entre a 13ª e a 22ª semana (aborto tardio), aproximadamente dois terços decorrem de problemas com a gestante e um terço tem causa desconhecida. “Os abortos tardios são relacionados à trombofilia, problemas no colo uterino e algumas infecções no início da gestação. Quando a gestação está nas quatro primeiras semanas, é comum que o conteúdo uterino seja naturalmente eliminado por completo. Depois disso, caso necessário, fazemos a aspiração ou a curetagem para retirar o restante do material que pode ter ficado no útero”, explica o ginecologista Petrus Sanchez.

Sintomas

Sangramento vaginal, contrações uterinas e cólicas no baixo abdômen são alguns sintomas do aborto involuntário. “O diagnóstico é feito de acordo com o relato e acompanhamento da paciente. Um grande indício é a ausência dos batimentos cardíacos no embrião após a sexta semana. A ecografia e a dosagem hormonal do exame Beta HCG também são ferramentas importantes para a confirmação do aborto”, ressalta Sanchez.

O médico observa que a situação é vivida com grande pesar e culpa pelas mulheres que já se consideravam mães. No entanto, diante de uma ameaça de aborto, além do repouso, pouco pode ser feito pela mulher. Muitas sentem remorso, acham que fizeram algo errado. “É desejável que o material seja enviado para análise patológica para descobrirmos a causa. Recomendamos também que a mulher não engravide nos três meses seguintes ao aborto para que o organismo se reestabeleça por completo. Repouso sexual, que varia de uma semana a um mês, também é importante”, pondera o ginecologista.

A servidora pública Adriana Tavares, 37 anos, passou por um tratamento de quatro anos até engravidar. A expectativa finalmente deu lugar uma enorme alegria em abril do ano passado, quando a gestação de quatro semanas foi confirmada. A gravidez era acompanhada por três médicos. Aos quatro meses, após cumprir repouso absoluto por conta de um descolamento de placenta, Adriana teve um sangramento. Uma ecografia confirmou que o coração do feto não batia mais. “A dor emocional entrou em cena simultaneamente ao desgaste e ao incômodo físico. Passei por um processo depressivo. Somente o tempo abranda a terrível sensação da perda de uma criança que não chegou a nascer. É um luto de momentos que não se viveu, por isso o pesar é muito intenso”, descreve.

Ainda no hospital, depois de passar pela curetagem, Adriana enfrentou uma situação experimentada pela maioria das mulheres que perdem o bebê. “Na recuperação do procedimento, compartilhei o mesmo ambiente com mães que haviam acabado de dar a luz. A partir daí, passamos a interiorizar a dor. Tive o apoio do meu marido, da minha família e de amigos próximos. Mas algumas pessoas se afastam, evitam falar do assunto, fazem dele um tabu, julgam que falar agrava o sofrimento. A ferida está cicatrizando, mas sei que nunca vou esquecer. Passamos a aceitar, a não nos culpar. A dor permanece, mas falar alivia”, destaca.

A psicóloga Alessandra Arrais confirma que, na perspectiva da mãe, o aborto involuntário é a perda de um sonho, da esperança, da renovação da vida. Ela pondera que cada caso é único e a resposta à interrupção da gestação depende da história da própria gravidez e de fatores ligados à maneira de conduzir os percalços da vida. “A crença de que a intensidade da dor da perda é proporcional ao tempo de vivência entre pais e filhos é equivocada. Quanto mais precoce a morte de um filho, mais os pais se sentem responsáveis. É como se tivessem falhado em proteger um ser que ainda não consegue se defender”, diz.

Segundo a psicóloga, o aborto espontâneo parece ser mais comum hoje, mas isso não passa de impressão. Ocorre que atualmente a gravidez é diagnosticada mais cedo, com dias e até horas de fecundação. Nessa fase tão inicial, o embrião ainda passa por transformações que podem resultar em uma involução. Quando as mulheres abortam involuntariamente sem se dar conta, não sofrem porque o vínculo emocional ainda estava por ser estabelecido. “As equipes médicas precisam entender a situação, se sensibilizar e respeitar o drama da mãe, ajudá-la nesse momento. Isso começa com o cuidado ao dar o diagnóstico da morte do embrião ou feto. Os hospitais devem estar preparados para atender a mulher que passa por essa situação. É um absurdo colocá-la junto com pacientes que acabaram de dar a luz”, enfatiza.

Alessandra conta que já presenciou situações em que os próprios médicos olham com desconfiança e levantam suspeitas sobre a espontaneidade do aborto sofrido. Ela reforça que a ideia do luto, da assimilação dessa morte, é totalmente menosprezada pela sociedade. E quando a dor não é vivenciada, abre-se espaço para traumas. Não raro, a mulher quer engravidar o mais rapidamente possível para que o novo bebê tenha um papel reparador, fique no lugar da criança que foi perdida. “É preciso aceitar a morte do feto, entender que nenhuma criança substitui outra e que é fundamental expressar o sentimento, externar a dor, buscar apoio emocional, seja no companheiro, nos amigos, na família ou com um especialista. Procurar saber os motivos da perda também é importante para que a mulher entenda que não tem culpa”, acrescenta.

Adriana superou a depressão, voltou a sorrir. “Nunca esperamos viver tal situação. Mas é preciso seguir em frente. Ficaram as marcas, sim, e elas são parte da minha caminhada. Hoje, entendo que foi uma experiência de vida. O destino nem sempre está em nossas mãos. Porém, a força que escondemos em nosso interior, essa sim está. E é justamente ela que devemos buscar para virar a página”, conclui.

Márcia Neri

 

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