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EFICÁCIA SIMBÓLICA E RITUALÍSTICA MAÇÔNICA Imprimir E-mail
Dom, 21 de Março de 2010 07:13

EFICÁCIA SIMBÓLICA E RITUALÍSTICA MAÇÔNICA

Klebber S Nascimento

21.03.2010

Este trabalho é uma tentativa de responder à pergunta: Como tornar eficazes os mecanismos participativos na Maçonaria? Tentarei demonstrar que isso será possível, principalmente, através da Eficácia Simbólica, alcançada através da estrita observância da prática ritualística própria da Instituição Maçônica, tese que podemos considerar como já presente em uma forma embrionária no texto que serve de preâmbulo a este arrazoado, de autoria do Ir .'. Joseph de Maistre, importante teórico maçônico dos fins do séc. XVIII e do início do séc. XIX.

Em primeiro lugar, há que lembrar que a Maçonaria não é nem um clube de serviços, nem uma sociedade beneficente, e muito menos uma sociedade secreta de conspiradores contra governos e altares, como insistem em afirmar seus detratores. Ela é uma forma alternativa de sociabilidade que é ao mesmo tempo uma Ordem Iniciática, possivelmente a mais importante instituição de cunho iniciático a subsistir no Ocidente nos dias de hoje. Uma Ordem Iniciática visa, antes de tudo, conservar um corpo de doutrinas tradicionais e provocar a transformação moral e espiritual de seus membros, que nela são admitidos através de um ritual de Iniciação. A Iniciação, conforme nos ensina o Ir.'. René Guénon (1886-1951) grande estudioso da Maçonaria e das doutrinas tradicionais do Ocidente e do Oriente, é a transmissão de uma influência espiritual através de um ritual específico. A Iniciação, ainda segundo Guénon, pode ser virtual ou efetiva.

A Iniciação virtual consiste na passagem do neófito pelo ritual de Iniciação propriamente dito, através do qual ele recebe uma influência espiritual juntamente com as linhas gerais de um programa de educação moral e espiritual que, caso seja seguido à risca, pelo mesmo, o fará viver uma transformação interior. A Iniciação efetiva é a realização concreta desse programa educativo que, no caso da Maçonaria, fará do iniciado um verdadeiro construtor social fortemente ligado a seus Irmãos de Ordem pelos mais puros laços de fraternidade. O programa educativo maçônico compreende, além de uma parte intelectual (o estudo das instruções próprias de cada grau maçônico e a elaboração de trabalhos de pesquisa sobre as mesmas), uma parte vivencial compreendendo a participação na atividade ritualística e a meditação sobre os símbolos maçônicos. Esta última parte, a nosso ver mais importante que a primeira, é que operará no psiquismo do iniciado as transformações que farão com que sua Iniciação passe de virtual a efetiva. São essas transformações que farão do iniciado um verdadeiro Maçom a participar ativa e conscientemente das atividades da Ordem.

Aprofundando essas considerações, podemos definir a pedagogia própria da Maçonaria como sendo de natureza simbólica e iniciática. Trata-se da mais antiga pedagogia da História da Humanidade, cujas origens remontam à noite da Pré-história, e que continua a ser praticada por populações remanescentes dos antigos povos tradicionais, como os índios do Brasil, conforme nos esclarecem as pesquisas de História das Religiões e de Antropologia Cultural. Essa pedagogia é inseparável da vivência ritualística, depende da eficácia de rituais escrupulosamente executados e vividos em sua profundidade.

Como é que uma prática ritualística se mostra eficaz, produzindo os efeitos dela esperados? O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, que no início de sua carreira acadêmica fez pesquisas de campo entre os índios do Brasil e lecionou na Universidade de São Paulo, em dois capítulos fundamentais de sua Antropologia Estrutural, O Feiticeiro e sua Magia e A Eficácia Simbólica, nos explica a eficácia dos rituais como sendo basicamente uma Eficácia Simbólica. Em suma, os rituais se mostram eficazes em provocar transformações nas pessoas por/para quem eles são executados quando: a) toda a comunidade envolvida nessa prática está plenamente convencida da eficácia dos rituais; b) os executantes dos rituais acreditam que aquilo que eles fazem é realmente eficaz; c) o destinatário dos rituais também crê piamente na eficácia dos mesmos. Lévi-Strauss apresenta curiosos casos registrados na literatura antropológica de pessoas pertencentes a sociedades tribais que, sendo alvo de ritos mágicos feitos executados por feiticeiros com o objetivo de matá-las, acabam realmente morrendo...

A Psicologia Analítica, escola de Psicologia Profunda criada pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) complementa e aprofunda essas explicações sob o ângulo psicológico. Segundo Jung, a psique humana é um sistema bipolar de energia ou libido. Os dois pólos do mesmo são o consciente e o inconsciente. Este último, além do inconsciente pessoal, descoberto e explorado por Freud, compreende uma dimensão universal, comum a toda a humanidade: o inconsciente coletivo. A psique está em constante dinamismo e correntes de energia se cruzam continuadamente. Os chamados arquétipos do inconsciente coletivo são núcleos de energia em estado virtual, matrizes energéticas arcaicas que formatam imagens simbólicas que povoam os sonhos (na dimensão individual), os mitos, as religiões e as artes (na dimensão da cultura). Para Jung, os símbolos, os mitos e os ritos atuam como verdadeiras ferramentas transformadoras da psique, transferindo energia psíquica do inconsciente para o consciente e vice-versa. Aqui temos uma descrição da eficácia simbólica em sua dimensão psicológica. Assim, para Jung, os rituais iniciáticos, como os da Maçonaria, funcionam no sentido de desviar a energia psíquica do iniciando, até então concentrada nos hábitos cognitivos e afetivos por ele adquiridos no passado, canalizando-a para novas atividades e novas atitudes de estar no mundo.

Os símbolos, para Jung, são entendidos segundo uma hermenêutica instaurativa, ou seja, como imagens que nos remetem para um conteúdo desconhecido e transcendente, que jamais a mente consciente consegue abarcar em sua totalidade e exprimir satisfatoriamente através de pensamentos e palavras. São polissêmicos, isto é, possuidores de múltiplos significados. A mesma coisa nos é dita pela Tradição Maçônica quando nos diz que o símbolo revela oculta seu significado. O símbolo difere, portanto, dos chamados sinais, que são significantes conhecidos a apontar para significados também conhecidos, estabelecidos por convenção. (Ex.: os sinais de trânsito). No símbolo, a relação entre a imagem e seu significado não é convencional. Ela surge de forma natural e necessária, seja ao nível pessoal (sonhos), seja ao nível cultural (religiões, mitos, etc.) (Ex.: a Cruz como símbolo do Cristianismo, a Roda de Oito Raios como símbolo do Budismo, o Crescente como símbolo do islã, etc.) As hermenêuticas instaurativas como a junguiana e as dos historiadores das Religiões como Mircea Eliade (1907-1986) e dos antropólogos do Imaginário como o Ir.'. Gilbert Durand, que reconhecem a dimensão transcendente e espiritual do símbolo, diferem das chamadas hermenêuticas redutivas, com a Psicanálise Freudiana e a Semiótica, de cunho materialista, que nada mais fazem senão reduzir os símbolos a sinais, negando-lhes a dimensão transcendente. Nesse sentido, poderíamos dizer, a partir de uma postura instaurativa, que a Semiótica é uma semi-ótica, pois só enxerga as coisas pela metade...

Jung estudou profundamente os símbolos, mitos e ritos como agentes transformadores da energia psíquica. O maçom lerá com proveito seu livro Aion – Estudos sobre o Simbolismo do Si-Mesmo, onde ele aborda, entre outros símbolos do Si-Mesmo, a mais profunda parcela da estrutura psicológica humana (Selbst em alemão, Self em inglês, e Soi em francês, o Eu Real ou Eu Profundo), pedra ou o lápis dos antigos filósofos alquímicos...

Segundo Jung e os historiadores das Religiões como Mircea Eliade, mitos são narrativas exemplares cuja função é auxiliar o homem a se situar no mundo e lhe proporcionar modelos de conduta. Os homens das sociedades tradicionais pautam sua conduta pela dos deuses e heróis cujas façanhas são narradas em seus mitos. Todas as sociedades tradicionais têm seus mitos fundadores a narrar a origem do mundo, a criação do homem, a origem da morte, os inícios da cultura, etc. A Maçonaria, herdeira das antigas sociedades de mistérios da Antiguidade, também tem seu mito fundador, a chamada lenda de Hiram que é narrada paulatinamente ao iniciando, na medida em que este vai galgando os Graus Simbólicos...

Como nosso principal objeto de estudo é a ritualística maçônica, dedicaremos maior atenção ao conceito de rito. Os ritos são séries de atos rigidamente codificados que compreendem: a) a execução de determinados gestos; b) o enunciado de determinadas palavras; c) a manipulação de determinados objetos. O conceito de rito vai se tornar mais claro se fizermos um rápido estudo sobre a etimologia da palavra. A palavra portuguesa rito deriva do termo latino ritus que tem os sentidos de rito, cerimônia e costume. O termo ritus, cuja raiz é artus, se vincula etimologicamente aos vocábulos sânscritos rtus (articulação, período de tempo, norma) e rta (ordem, princípio, lei) e ao avéstico ou velho persa artha ou asha (ordem, verdade). O rito seria então uma ação conforme a Ordem Cósmica, cuja eficácia depende dessa conformidade. Ritus é ligado também aos termos gregos arithmos (número), rithmós (ritmo) e areté (virtude). Lembremos que a ação ritual se caracteriza por uma alternância ordenada e regular entre elementos opostos e é também regida por padrões numéricos. (Ex.: a tríplice repetição de gestos e palavras nos rituais maçônicos.) Por outro lado, há que lembrar que um dos objetivos da Maçonaria é “erigir templos à Virtude e cavar masmorras ao Vício”... Ritus também está relacionado com o termo latino ars (arte), o que nos recorda que no rito existe uma importante dimensão estética: o ritual precisa ser belo.

Os ritos estão profundamente relacionados com os mitos. Geralmente as ações rituais são repetições ou representações dos feitos dos deuses e heróis que são narrados nos mitos, da mesma forma que o trabalho dos atores no palco segue estritamente o texto da peça que está sendo representada no teatro. Os ritos iniciáticos, como nos ensina Mirceal Eliade, geralmente representam a morte e o renascimento de um personagem mítico com o qual o iniciando deve se identificar ao passar por uma experiência psicológica de morte/renascimento, isto é, morrendo como profano e nascendo como iniciado. É o que vemos no rito maçônico da Exaltação, que reproduz as peripécias da morte e renascimento de Hiram Abif...

Os ritos maçônicos, quando executados com a necessária atenção e seriedade, mostram-se ricos em eficácia simbólica. Por muitas vezes o autor destas linhas, que tem a felicidade de pertencer a uma Oficina em que a ritualística é executada à risca, chegou à Loja esgotado, cansado e deprimido e, ao fim de uma sessão marcada pela mais estrita observância do ritual, saiu da mesma revigorado e bem disposto, tendo assim “recarregado as baterias”, como se diz em linguagem popular. Acredito, pois, que os mecanismos participativos na Maçonaria se tornarão eficazes através da eficácia simbólica que transforma o profano em iniciado capaz de passar da Iniciação virtual à efetiva, canalizando sua energia psíquica das insignificâncias do mundo profano para os augustos fins a que se propõe nossa Ordem. Assim, nossos Irmãos serão verdadeiros maçons plenamente motivados a trabalhar conjuntamente pela Ordem, caso a atividade ritualística seja realmente levada a sério , ao invés de ser realizada de maneira displicente como uma mera formalidade enfadonha as ser despachada o mais depressa possível para dar lugar aos prazeres da ‘”cervejola”, da pizza e da conversa fiada...

Mais por ne parler que de nous, 30 ou 40 personnes silentieusement rangées le long d’une chambre tapissée en noir, ou en vert, distinguées elles mêmes par des habits singuliers et ne parlant qu’avec permission, raisonneront sagement sur tout objet proposé. Faites tomber les tapisseries et les habits, éteignez une bougie de neuf, permettez seulement de déplacer les sièges : vous allez voir ces mêmes hommes se précipiter les uns sur les autres, ne plus s’entendre, ou parler de la gazette et des femmes ; et le plus raisonable de la societé sera rentré chez lui avant de réfléchir qu’il a fait comme les outres. Travaillons donc à un rituel toujours sage et quelques fois auguste ; qu’il soit parfaitement adapté à nôtre constitution future ; qu’on y parle de nos devoirs particuliers, de la morale générale, et de l’être suprême avec une certaine dignité, également éloignée de la petitesse d’une femmelette et de la morgue de ce qu’on appele un philosophe.

(Entretanto, para falar apenas de nós, 30 ou 40 pessoas silenciosamente alinhadas ao longo da parede de uma câmara atapetada de negro ou de verde, distinguidas elas próprias por paramentos singulares, e falando apenas com permissão, raciocinarão sabiamente sobre todo assunto proposto. Deixai cair as tapeçarias e os paramentos, apagai uma das nove velas, permiti apenas que troquem de lugar; ireis ver esses mesmos homens se precipitarem uns sobre os outros , não mais se entenderem, ou falarem do jornal ou das mulheres; e o mais racional do grupo voltará para casa antes de refletir que agiu como os demais. Trabalhemos, pois, com um ritual sempre sábio e por vezes augusto; que ele seja perfeitamente adaptado a nossa futura constituição; que nele se fale de nossos deveres particulares, da moral geral, e do ente supremo com uma certa dignidade, igualmente distanciada da pequenez de uma mulherzinha e da arrogância desdenhosa daquele que chamamos de filósofo.)

Joseph de Maistre (1753-1821) – Memoire au Duc de Brunswick (1782)

Ir.Ricardo Mário Gonçalves

ARBLS “Quintino Bocaiúva” Nº 10 – GLESP Or. de São Paulo

 

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