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SOBRE FRADES, PADRES E MAÇONARIA Imprimir E-mail
Sáb, 03 de Julho de 2010 14:42

SOBRE FRADES, PADRES E MAÇONARIA

Helio P. Leite

03.07.2010

Proêmio.

Saudações fraternais a todos os que nesta oportunidade se sentirem atraídos pela leitura deste artigo. Quero agradecer a honra e a satisfação de ser publicado neste conceituado veículo de comunicação que conheço de longa data e com o qual tenho procurado colaborar, no limite do possível, dando a conhecer os meus pensamentos, idéias e concepções sócio-cultural-maçônicas. Então, em seqüência a tantos outros artigos, vamos abordar hoje um tema desafiador: escrever sobre frades, padres, sociedade e maçonaria, destacando Frei Joaquim do Amor Divino Caneca. Queridos Irmãos! Caros Leitores! Tenho comigo que o ideal maçônico de construção de uma sociedade justa e perfeita alicerçada no aperfeiçoamento dos costumes como condição universal de ascese social não seja uma quimera, e embora se apresente na atualidade como um projeto inacabado, o ideal maçônico é um enorme pássaro em permanente vôo, ou melhor dizendo, uma fênix, sempre em pleno ar, sempre renascendo das cinzas das suas próprias vicissitudes, foi assim sempre e assim será.

Os escritores maçônicos, tácito e/ou explicitamente, reproduzem em seus artigos esse ideal em seu constante batalhar com as palavras que almeja transmitir aos leitores, e a cada artigo que escreve é uma luta particular que trava com o presente, com o passado e com o futuro, e principalmente com as suas próprias idéias e concepções maçônicas. Comparados a filhotes do pássaro Fênix, os escritores maçônicas não repousam nunca e, quando injustamente criticado ou indevidamente elogiado, fica lá em cima empalhado por suas miragens utópicas ou imensuravelmente condoído e sem saber o que dizer ou sobre escrever, e como qualquer fênix, dilacera-se por dentro até o próximo renascer das cinzas.

Como a ave fênix em cada renascer, o escritor maçônico a cada artigo que escreve, deixa para trás parte dos seus escritos anteriores, permitindo assim o aparecimento de novas palavras, idéias e concepções que se perdem ou se encontram em cada artigo, ou que permanecem vagueando no histórico mental do escritor, e neste contexto quero invocar a ausência de padres, frades, clérigos, sacerdotes e pastores em nossa Ordem Maçônica, fato que já virou rotina e talvez não se resgate nunca mais as suas prestigiosas, inteligentes e laboriosas presenças em nossa Ordem, a não ser nessas ou em outras memórias maçônicas.

Este artigo, como dito, pretende destacar a figura histórica e o ideal maçônico que se encarnou na pessoa do Frade Carmelita Frei Joaquim do Amor Divino Caneca.

Ajardinar Esperanças

Gilberto Freyre e Frei Beto são dois ícones brasileiros. O primeiro viveu nos séculos XIX e XX, portanto, já foi habitar outros lares espaciais, e o outro, ainda habita entre nós, graças ao GADU, e nos premia com sua inteligência e escritos.

Gilberto Freyre, em artigo e publicado em 17 de setembro de 1942 no Jornal do Comércio, em Recife, lembrou com maestria que a história do Brasil era tão cheia de padre e de frade que de longe parece a “história eclesiástica” e saiu-se a lembrar a “Revolução dos Padres” havida em Pernambuco em 1817, peregrinando em seguida pela Revolução de 1824 até alcançar em seus relatos a famosa “Questão Religiosa”, envolvendo entre uns registros e outros, os Dons Vitais e os Frei Canecas, e inúmeros outros frades e padres admiráveis, para fixar-se com todo mérito, no padre-mestre Miguel do Sacramento Lopes Gama, uma das glórias literárias do Império e que, debaixo do pseudônimo de “Carapuceiro”, a partir do seu sítio do Manguinho, escrevia com bom-senso e amor à tradição da escrita, mas por seus excessos panfletários em face dos problemas essenciais existentes, recebeu o epíteto de “O Padre Carapuceiro”, tornando-se, por isso, o escritor mais castigado e chistoso daqueles anos de 1840/1850, por conta das farpas e ausência de papas na língua quando na defesa da sociedade pernambucana ante os problemas do Brasil e da Igreja da sua época.

Frei Beto, em artigo recente, disse que “a esperança é um pássaro em vôo permanente. Segue adiante e acima de nossos olhos, flutua sob o céu azul, não se lhe opõe nenhuma barreira. É assim em tudo aquilo que se nutre de esperança: o amor, a educação de um filho, o sonho de um mundo melhor”. E sobre o árduo trabalho de semear esperanças discorreu dizendo que “É muito frustrante semear esperanças. São grãos miúdos, delicados, quase invisíveis, ora plantados no caminho acidentado, ora num coração angustiado, sempre no terreno árido da pobreza insolente. E depois vem o árduo trabalho de regar todos os dias, ver emergir o primeiro broto, um fiasco de verde aflorando sobre a terra negra, e a gente é tomado por esse sentimento feminino do querer cuidar e começa então a acreditar que a primavera existe”.

Ora, sem discordar do pensamento de Frei Beto, distingo dois momentos em sua escrita, qual seja, plantar e ajardinar esperanças. Entendo que ajardinar esperanças nem sempre implica em plantar esperanças. Pode-se plantá-la sem a obrigatoriedade do ajardinamento posterior e pode-se ajardinar a semente da esperança plantada por outrem, sem que um desmereça o outro, Em verdade a plantagem e o ajardinamento se ajustam no mister da missão humana: uns estão para plantar, outros para ajardinar, e muitos outros para admirar, colher ou, simplesmente, para usufruir dos trabalhos do semeador e ajardinadores de esperanças.

O interessante de observar é que os dois diálogos me trouxeram à mente a figura do Frei Liberdade, “Amor Divino”, Caneca, e com ele, uma plêiade que a Maçonaria, ainda hoje, cultiva em seus anais, dentre os quais, apesar da extensa lista já conhecida, destaco: o Cura Hidalgo, o Padre Calvo, o Frade Arruda Câmara, o Padre Rolim, Padre Miguelinho, Monsenhor Muniz Tavares, Padre Roma, Padre Feijó, Padre José Antônio Caldas, mais conhecido como Frei Cometa e o Padre João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro, que em 1817 mandou confeccionar a Bandeira de Pernambuco, repleta de simbolismos maçônicos. Alias, a Maçonaria foi o celeiro de idéias liberais que circulavam livremente em Pernambuco, se constituindo em um dos braços revolucionários dos movimentos de 1817, 1824 e 1848. E rendo homenagem especial aos padres Aloísio Guerra, Valério Alberton, D. Boaventura Kloppenburg, e a D. Avelar Brandão Vilela, que celebrou uma missa na Grande Loja Liberdade de Salvador, no Natal de 1975.

Frei Liberdade

Joaquim da Silva Rabelo, Joaquim do Amor Divino Rabelo e Joaquim do Amor Divino Rabelo Caneca, quando passou a adotar o nome de Caneca em homenagem ao pai, Domingos da Silva Rabelo, tanoeiro português, fabricante de barris e canecas. Participou da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador em 1824. Na primeira, sofreu como castigo os horrores da prisão, na Bahia. Na segunda, foi executado por fuzilamento no Largo das Cinco Pontas diante da presença de inúmeros de seus conterrâneos.

Frei Caneca era um homem extrodinariamente culto e sabia utilizar com maestria as suas idéias e a facilidade de expressão da qual era possuidor, para animar seus companheiros a lutar, para dar-lhes argumentos com os quais combatiam o autoritarismo do Império e os preconceitos que a condição de colônia impunha aos nascidos no País. Portador de idéias liberais, partilhava idéias republicanas, freqüentou a Academia do Paraíso, um dos centros de reunião daqueles que, influenciados pela Revolução Francesa e pela Independência dos EUA, conspiravam contra o jugo português. Foi professor de retórica e geometria e depois de filosofia racional e moral, em Pernambuco e Alagoas.

Sociologicamente falando, colocou sua fé e sua inteligência a serviço da liberdade do povo e da conquista do orgulho da nacionalidade. Viveu e morreu por isso. Apesar de frade teve três filhas e um filho. A vida e os escritos de Caneca era uma espécie de afirmação do papel fundamental do povo na condução dos seus destinos, povo a quem cabe, em última análise, o direito e a obrigação de limitar o poder dos governantes e de construir um país à sua exata medida.

Frei Caneca fundou o jornal Typhis Pernambucano, nome inspirado num dos heróis da mitologia grega que apesar de esdrúxulo, tornou-se popular e era lido fartamente. O seu famoso "Tífis Pernambucano" era distribuído pelo próprio Caneca de porta em porta das casas do Recife. O jornal divulgava as idéias e os escritos de Caneca, essencialmente. O Typhis defendia os direitos do povo brasileiro contra o absolutismo imperial, e afirmava, por exemplo, que a nossa Independência não era um presente do Imperador, mas conquista das muitas lutas da nossa gente, e disso podia se orgulhar esse povo, que nada devia a Portugal. Quer era [o povo] capaz de criar por cá uma história toda nossa, sob esse sol tropical, dourado e forte, com nossa cor de pele, nossos odores e nossa alegria. Com esses e outros argumentos, Caneca conseguia absorver a alma do povo e dava em troca sua razão de viver: a luta pela liberdade.

Envolvido de corpo e alma na Revolução Pernambucana de 1824, Frei Caneca viu a cidade do Recife cercada pelas frotas e tropas de mercenários como Taylor e Cochrane, e de brasileiros como Francisco de Lima e Silva, pai do futuro Duque de Caxias, e enquanto isso acontecia, Caneca denunciava: "S. M. está tão persuadido, que a única atribuição que tem sobre os povos, é esta do poder da força, a que chamam outros a última razão do Estado, que nos manda jurar o projeto com um bloqueio à vista, fazendo-nos todas as hostilidades". Frei Caneca percorria as ruas do Recife fazendo a pregação pela resistência. Nesse clima, viu no dia 12 de setembro de 1824, a cidade ser ocupada pelas tropas legalistas, e os revoltosos aos gritos de “Independência ou Morte!” e “Viva a Confederação do Equador” serem vencidos e forçados a recuarem para fora da cidade do Recife em direção ao interior do estado, para onde se transferiu o combate. Derrotados em 17 de dezembro de 1824, à Caneca se reservou a forca montada no Largo de Cinco Pontas, mas como ninguém se prontificou a oficiar como carrasco, o Brigadeiro Lima e Silva, então, deu ordens para que se mudasse a sentença. Caneca deveria ser fuzilado, e em uma única descarga, o peito do frade explodia em jatos de sangue e o corpo amarrado relaxou-se por completo. Era o dia 13 de janeiro de 1825.

A vida e a obra de Frei Caneca é um dos melhores exemplos de homem de letras inspirado pelas idéias do iluminismo. Caneca professava a possibilidade de avanço da humanidade com a popularização do conhecimento, com a liberdade de pensamento e com a participação de amplos setores da população nas decisões políticas do País. Como humanista profundo, que era, venceu a sua própria consciência e pegou em armas para lutar pela liberdade de consciência e de corpos dos seus contemporâneos pernambucanos. Acreditava no predomínio da verdade, no bem e na vitória da justiça, e lutou por isso, o que o autorizava a dizer que “seríamos infinitos se tentássemos”.

De Volta ao Presente

E, lamentavelmente, olhando o passado com os olhos do presente e perperscrutado o presente com os olhos do futuro, ousamos dizer que assiste toda razão a Frei Beto em sua prédica sobre as dificuldades de semear esperanças, e daí brota a pergunta que insiste em não calar: De quantos Freis Liberdades ainda vamos precisar para que os idéias maçônicos não se revelem mais como um projeto ideológico inacabado, e se transforme numa Maçonaria para todos.

De quantos escritores maçônicos precisaremos para levar ao leitor as palavras, as idéias e a luta dos maçons e da Maçonaria para o patamar glorioso que lhe reserva a História. E de quantos leitores e veículos de comunicação maçônicos precisaremos para a promoção dos ideais da Maçonaria. Ah! Caneca, realmente “seríamos infinitos se tentássemos”.

Luiz Gonzaga Rocha

 

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