O BODE NA MAÇONARIA Imprimir E-mail
Sex, 16 de Julho de 2010 09:07

O BODE NA MAÇONARIA

Helio P. Leite

16.07.2010

A propósito. Apresento uma questão curiosa: como pôde o bode-preto dos maçons ser considerado como a representação animal do diabo? Note que a Bíblia não descreve o diabo. Os primeiros artistas plásticos considerando suas origens angelical, mostraram-no como um ser belo e luminoso. Mas tarde, durante a Idade Média, originou-se a figura grotesca com chifres, caudas, falos, pés de cabra, corpo peludo e características caprinas. O bode desde tempos imemoriais, esotericamente, o é um animal simbólico, identificado ora com o deus Pã, ora com o deus Dionísio/Baco, pelo qual as jovens se deixavam possuir nos cultos da antiguidade. É o herus socer. E, ainda assim, o bode tornou-se a figuração animal mais identificado com o Diabo, entre nós e em todo o mundo. Há explicações?

À guisa de introdução, tenho consciência de que ao me dispor discorrer sobre o tema estou enveredando por terreno escorregadio, movediço e sem opções de conclusão objetivas. Escrever sobre lendas, mitos, seitas e sociedades secretas é navegar em veios auríferos que tem muito em comum, mas nem tanto, principalmente em considerando que são frágeis, muitos frágeis, os marcos que delimitam uma coisa e outra, podendo tudo ser computado em milímetros ou em milhões no mundo físico e no mundo da imaginação.

Aproveito o ensejo para dizer que desde muito ansiava por escrever sobre a sociedade secreta dos montadores de bode, buscando possíveis e eventuais elos com a legenda do bode associado aos maçons. E neste particular, desde que escrevi e dei publicidade ao livro “A Lenda de Hiram” [ROCHA, 2000], a figura de Tubalcaim conduzindo o arquiteto tírio até os domínios de Eblis [o demônio] depois do desastre do seu Mar de Bronze com pés de bode, era algo que me intrigava. Rendido e sem achar explicações para a introdução do culto do fogo na lenda de Hiram, imaginava e fazia associação com a figura do bode inserido na estrela de cinco pontas e em outras lendas judias não-canônicas, e ainda, buscava entender os adornos postos no Moisés da famosa escultura de Micheangelo. Adite-se a tudo isto a possibilidade de encontrar alguma associação com o bode-preto dos maçons. E como tudo me parecia ser um universo indecifrável, quedei-me silente. Agora dou passos adiante.

E começo com os dicionaristas maçônicos mais renomados. Estes apontam o termo “bode” em suas obras de referência como verbete sem qualquer significação maçônica. Não fazem associações, nem mesmo à figura do Bafomet dos Templários ou aos termos bíblicos referendados pelos profetas bíblicos, ou a Jesus Cristo quando este, sob o aspecto religioso, declamou que “as ovelhas seriam separadas dos bodes” [CAMINO, 1990]. Ao que sei, somente dois dicionaristas, Nicola Aslan e Octaviano de Menezes Bastos foram mais longe. O primeiro ao apontar que a figura do bode encontra-se ligada à Maçonaria por causa do Bafomet, sendo este um símbolo da iniciação[3] maçônica [ASLAN, 1974]. O outro ao registrar que Bafomet é nome bastante conhecido dos CC\ K\ [BASTOS, 1952]. Joaquim Gervásio de Figueiredo, por exemplo, passa ao largo e nem mesmo registra o verbete “bode” em sua obra de referência.

Há quem discuta e há quem considere que o tal “Bode Preto” não passa de uma pilhéria alimentada pelos próprios maçons, mas volta e meia aparece alguém perguntando ou fazendo associações e colocações indevidas sobre o tal bode dos maçons. A questão do bode associado aos maçons, contudo, não parece ser algo específico da maçonaria nacional. Na literatura maçônica nacional, o tema mereceu pouquíssima divulgação. A Revista Maçônica “A Trolha”, por exemplo, em seus quase quarenta anos de existência, abordou a temática oito vezes: com Peter Angermayer [Trolha nº 06/1979]; com Assis Carvalho [Trolha nº 16/1983]; com Mário Linário leal e Vanildo de Sena [Trolha nº 19/1985]; com Castellani em sua coluna Consultório Maçônico [Trolha nº 74/1992, 168/2000 e 182/2001]; com Osvaldo Herrera [Trolha nº 125/1997] e com Stefanos Paraskavas Lazarou [Trolha nº 204/2003]. O tema também mereceu publicações - pelo menos uma vez - nas Revistas Maçônicas “O Prumo” [GOSC] e na “A Verdade” [GLESP]. Em livros o assunto tem sido pouco explorado. Na rede mundial de computadores existe vastíssima divulgação, mas tudo orbita em torno de um ou outro autor, ou seja, não existe variação ou argumento novo.

Neste artigo defendo a tese de que a figura do Bode foi associada aos maçons por causa do Bafomet dos Templários e devido a Tubalcaim da Lenda Hiramítica da Construção do Templo de Salomão, que na legenda maçônica possuem a mesma carga de historicidade e aspectos convergentes. Mas devemos, antes de adentrar neste particular, vale analisar outros fatos, apresentar argumentos e conceitos. A estrutura deste articulado assenta-se em cinco postulados ou versões, na seguinte ordem: bíblica, lendária, templário, astrológica e esotérica.

Conceitualmente, admito como o fez o mestre José Castellani, que o bode é um quadrúpede, ruminante, cavicórneo [o que tem cornos ou chifres ocos], macho da cabra, notável pelos compridos pêlos sob o queixo, como barba ou cavanhaque, e pelo cheiro nauseabundo que exala. Cientificamente, o bode é um mamífero herbívoro, ruminante, cavicórneo, pertencente à família dos bovídeos, subfamília dos caprinos [Capra aegagrus hircus]. Em resumo, é o macho adulto dos caprinos. O bode-preto, por seu turno, é um brasileirismo usado para indicar o diabo.

Castellani disse que os maçons, por conta da falsa e malévola crença de que a maçonaria rendia culto ao bode preto, alusão a uma possível personificação demoníaca, jocosamente, passaram a ironizar a ignorância, o atraso intelectual e o sectarismo daqueles que insistiam em associar os maçons aos bruxos e aos adoradores do bode-preto, adotando o epíteto de “bode”. Hoje, com essa denominação existem jornais, revistas clubes e grupos de maçons. Criou-se Confrarias e Escuderias do Bode, cujos símbolos são representados com bodes vestidos com aventais, usando óculos de aro redondo como a demonstrar intelectualidade e portando alfaias maçônicas. Muitas dessas criações inserem o bode entre o Triangulo ou sob o Esquadro e o Compasso, sustentando a falsa visão da nossa relação com supostos seres demoníacos.

A versão bíblica centrada no livro de Gênesis faz cerca de 30 referências aos Querubins[4], apontando-os como seres viventes com um, dois ou quatro rostos de homens e animais, asas, seios e chifres, conforme ordenado por Deus. Na escala angelical, os Querubins se colocam na terceira ordem depois de Anjos e Arcanjos e antes de Serafins, Tronos, Potestades e Dominações. Para alguns estudiosos da Bíblia, Bafomet seria uma lembrança dos Querubins da Arca da Aliança e do Santo dos Santos indicados por Deus a Moisés. O Moisés de Micheangelo, aliás, tem em sua testa um par de cornos, com o significado de “força e poder”. A vulgata latina descreve o semblante de Moises como “facies cornutas”, eis que seu rosto resplandecia e de sua testa surgiam raios, semelhantes a cornos.

Os termos bode, cabra, cabrito e carneiro aparecem inúmeras vezes na Bíblia. No Levítico se encontra referências ao bode expiatório[5] e ao bode mensageiro. E por que o bode? A tradição aponta que teria sido escolhido o bode por ser um animal que não iria transmitir os pecados confessados para mais ninguém. Era símbolo do silêncio absoluto. Confessou para um bode, estava guardado a sete chaves! A tradição aponta que de sete em sete anos, o ritual da expiação dos pecados era seguido pelo Judaísmo, sacrificando um bode em cada templo, ou comunidade, e abandonando a própria sorte o bode que leva para o deserto os pecados do povo depois deste ter recebido as confissões e os pecados das pessoas. Anos depois do advento de Jesus Cristo, a própria Igreja Católica substituiu o bode do judaísmo pelo padre, que passou a ouvir os pecados dos fiéis, num confessionário, cuja instituição garante ao pecador o voto de silêncio por parte do sacerdote-confessor. O padre, no caso, é garantia de silêncio absoluto, como o bode, jamais podendo levar adiante o que o fiel confessou.

No Novo Testamento há relatos de que quando os apóstolos espalharam-se para pregar a palavra de Jesus, respeitavam muitas das tradições do Velho Testamento. Em muitas cidades que chegavam, praticava-se a tradição de transmitir os pecados das pessoas para um bode e lançá-lo no deserto. O termo bode, contudo, aparece poucas vezes no Novo Testamento, sendo a versão mais citada a de Mateus [25:32-34], onde Jesus, no seu sermão profético, faz referência a um pastor que aparta o bode das ovelhas, pondo estas a sua direita e aquele à esquerda.

Na Maçonaria, “ser como bode” significa “trabalhar em silêncio”. Assim, a imagem do bode pode ser associada como símbolo do segredo, do silêncio e da confidência entre irmãos da doutrina[6]. Essa versão pode ter sido amplificada durante o período da Inquisição, onde torturadores não arrancando segredos de maçons aprisionados, na França, estes foram comparados a bodes, pois não se arrancava uma só palavra, não houve delatores da Ordem. Entrementes, poucas são as possibilidades de adesão dos termos bíblicos de bode aos maçons. Menos ainda a possibilidade de adoradores do diabo ou de apostatas da religião.

A versão lendária dos montadores de bode aponta que há dois séculos eles passam velozmente, montados em bodes pretos, durante as noites, para matar e roubar. [...] Eles aparecem sempre em bandos sanguinários, praticando diabruras e crimes terríveis. [...] Cada bode podia carregar até quatro pessoas no trajeto, mas era proibido falar, sob o risco de cair do bode e morrer. Esses relatos nos remetem aos séculos XVII e XVIII, vez que as pesquisas sobre essas narrativas somente começaram a ser estudadas no final do século XIX e início do século XX.

Os relatos mais destacados da lenda aponta que havia montadores de bode em Luxemburgo, Rynland, Herzhogenrath, Wellen, Hasselt, Sobre-Maas, Brabant, Holland, Maastricht, Ahen, Dussendolf e Heik. Isto quer dizer: existiram seitas ou sociedades secretas de montadores de bode em vilarejos e cidades dos Países Baixos e regiões fronteiriças com a Bélgica, Holanda e Alemanha. Em termos de data, a referência inicial é uma gravura de 1489, mostrando o vôo do bode transportando figuras antropomórficas. Depois, a informação mais precisa nos remete ao ano de 1772, quando o cirurgião Josef Kirchloffs, em Herzhogenrath, morreu enforcado após ser aprisionado no ano anterior e torturado sete vezes. Sobre ele pesava a acusação de ser um montador de bode. Antes [c. 1725] há relatos de que foram enforcados vários montadores de bode em Heik e em Kirchloffs [Alemanha]. Em 1790, os revolucionários que combatiam o regime austríaco receberam um reforço de trezentos homens vindos do Heik. Os últimos adeptos dessa seita foram executados em 1794 [LINDEKENS, 1975].

O relato de Ben Lindekens, publicado na Revista Planeta nº 33, indica que o termo montadores de bode já existia muito tempo antes do aparecimento desses bandos nos Países Baixos. A tradição antiga identificava-os aos espíritos-demônios e que o termo foi aplicado aos bandos, mais pelo fato de que eles trabalhavam à noite e em lugares diferentes, e como o povo acreditava tratar-se de um único bando, para estarem ao mesmo tempo em diversos lugares eles só podiam deslocar-se pelos ares montados em bodes [LINDEKENS, 1975]. Os pesquisadores J. Melchior e J. Michels apontaram cada um de per si, que o fenômeno “montadores de bode” possui dois aspectos: o criminal e o esotérico; e que os “montadores de bode” se chamavam entre si de companheiros. Ainda segundo Lindekens, os iniciados era chamados de neófitos; havia um juramento a ser prestado solenemente antes do nome do neófito era escrito em um livro; e, um ritual sob luz de velas em meio a uma imagem de Nossa Senhora, um crucifixo, uma caveira, hóstias consagradas e a mão morta de um enforcado. Este corolário aponta para uma seita/sociedade iniciatica.

A lenda segundo os pesquisadores J. Russel [1877], J. Melchior [1915] e J. Michels [1947], apontados no relato de Lindekens, estava assentada em fatos verdadeiros, entretanto, apenas o lado criminal da questão foi examinado, desprezando-se o aspecto esotérico. Os pesquisadores procuraram uma relação entre montadores de bode com os Valdenses e os Templários, pois estes também usavam o bode em seus rituais [não há indicação de resultados neste campo da pesquisa]. Nos processos e documentos foram pesquisados, ainda, temas correlatos com práticas pagãs, folclóricas e bruxaria, bem como atuações anti-religiosas, ciganos e ao bode – demônio – que emprestou suas formas para o diabo que surgiu no fim da Idade Média.

Xico Trolha, na edição nº 16 da Revista Maçônica A Trolha [nov/1983], reproduziu por inteiro o artigo publicado na Revista Planeta nº 33, assinalando como foram esses bandos de montadores de bode desmascarados, esclarecendo aos maçons e ao mundo inteiro, de que a maçonaria nada tinha a ver com aqueles senhores montadores de bode da lenda. E de fato, não vemos como a lenda dos montadores de bode dos séculos XVII e XVIII possa ser associada aos maçons.

A versão Templária. A história em torno do bode [Baphomet] encontra-se intimamente relacionada com a da Ordem do Templo ou Ordem dos Templários, também chamada de Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo, ou, simplesmente, Templários, seja pela ação do Rei Felipe IV, mais conhecido como Felipe o Belo, da França, contando com o apoio do Papa Clemente V [Beltrão de Got], ambos com o intuito de desmoralizar a Ordem, pois o primeiro era seu grande devedor e o segundo queria revogar o tratado que isentava os Cavaleiros Templários de pagar taxas à Igreja Católica, seja pelos escritos e escritores posteriores que procuraram associar a Maçonaria aos Templários, seja, ainda, pela estampa da figura de Baphomet em obras templárias e maçônicas desde tempos idos à atualidade.

Os Cavaleiros Templários e a Maçonaria, pelo sim pelo não, estão entrelaçados historicamente, daí associar a figura nefasta de Baphomet à nossa Ordem foi um passo. Assim como ocorreu com os Templários, também a Maçonaria foi alvo das inverdades, que buscavam associar a figura de Baphomet a Ordem. Isso cresceu com algumas publicações fantasiosas, principalmente a contar da publicação da obra Dogma e Ritual da Alta Magia”, de Eliphas Levi, classificando a imagem panteísta de Baphomet como a figura mágica do absoluto, e da obra Os Mistério da Franco-Maçonaria”, obra anti-maçonica e anti-católica de Leo Taxil [Gabriel Antoine Jogand-Pages], que usou e popularizou a imagem do “Bafomé de Levi” com um grupo de maçons ao lado dele. Em inúmeras outras obras maçônicas e antimaçônicas pode-se perceber a figura de Baphomet, como na obra de Abbe Clarin de La Rive, La Femme et L'Enfant dans la Franc-Maconnerie Universal" [A Fêmea e a Criança na Franco-Maçonaria Universal] onde se vê, logo na capa, Bafomé seduzindo uma mulher entre as colunas da Maçonaria. E não podemos desconsiderar que foi Eliphas Levi quem primeiro incorporou seu Bafomé na literatura maçônica, inserindo a figura de um bode no pentagrama invertido. Nestes casos, poderia ser Baphomet o bode da Maçonaria?

A resposta tanto poderá ser sim como ser não! As teorias acercam Bafomé e sua ligação com os Templários são muitas. Afinal, Baphomet era um ídolo dos Templários. Os Templários foram acusados por adorar Baphomet. Jacques de Molay, Grão-Mestre da Ordem do Templo, com todos os seus irmãos, morreram por causa disso. Em outra vertente, as associações dos Templários com a Maçonaria não são poucas. Assim, Baphomet ou Bafomé é uma síntese de vários conceitos muito mais conhecidos por sua relação com os Templários e a Maçonaria. Então, o tal "BODE" da Maçonaria bem pode ser um resquício do Baphomet dos Templários. Assim entendo.

M A versão astrológica. No remoto passado a Astrologia e a Astronomia foram ciências notáveis e fascinantes que exerceram influências e muita aplicação na formação educacional, religiosa e civilizatória dos povos. A maçonaria, na construção do seu ideário, bebeu nessa fonte e nela extraiu muitos ensinamentos. A abóbada celeste e as colunas zodiacais e seus pentaclos, são exemplos que destacamos do entrelaçamento maçônico e astrológico. Poder-se-ia apontar outros exemplos, entretanto, fico por aqui.

Avaliemos que se alguém entender que tem alguma importância perguntar o que significa o nascimento de um ser humano sobre a Terra no curso dos tempos, também se reveste de importância perguntar sobre o significado da cristalização das ideias que se prestam à criação das instituições sociais e humanas, e em especial a criação de uma Instituição como a nossa. A resposta a este questionamento, faltamente, conduzirá o interessado a entender que a nossa Ordem foi reorganizada em Londres, a 24 de junho de 1717, no horário hipotético das 20h. Neste dia e hora, o Sol estava se pondo no horizonte a 3º00’04’’, no signo de Câncer [três dias depois do Solstício de verão na Inglaterra], opondo-se ao ascendente, em 29º46’, no signo de Sagitário, ou seja, estava recebendo todas as influências do signo de Capricórnio, onde entraria completamente às 20h01’06’’. Portanto, esses indicativos servem para dizer que a Maçonaria Moderna, astrologicamente, nasceu sob a ótica empreendedora do signo de Capricórnio.

Capricórnio é o décimo signo do zodíaco, simbolizado pelo bode/cabra, animais que possuem chifres e são capazes de enfrentar obstáculos frontalmente, com paciência, persistência e com firme determinação na escalada de sua trajetória. A heráldica representa-o como um cabrito montanhês subindo escarpas. Sua cor é o preto. Sua ação é comedida, conservadora, reta, reservada e econômica. Os assuntos sob a sua influência são tratados com cálculo, para que sejam desempenhados com afinco. Nas correntes mágicas é tido como o primeiro degrau da espiritualidade, referência a sua experiência, sabedoria e sofrimento que o pôs de joelhos e o impele a refletir acerca da verdadeira natureza de Deus. Observem que tudo isto condiz com a natureza da organização místico-esotérica da nossa Ordem Maçônica

Não vou me alongar neste ponto, até mesmo por pretender dar a conhecer interessante antigo que escrevi conjuntamente com os irmãos Reginaldo Gusmão e Hiroshi Masuda. E encerrar dizendo que falamos aqui do bode montanhês, que deve "calcular" muito bem seus passos para não cair no precipício. E talvez possamos dizer que é devido a esta tradição que existem as viagens iniciáticas do neófito e a meditação na Câmara das Reflexões. Nessa perspectiva, o caminhar do "bode" deve ser em esquadria para não errar os passos. Filosoficamente, bode, nesta vida, todos poderemos ser em uma ou outra oportunidade. Devemos, por isso, ter cuidado em não andar com "passos incertos" que possa nos conduzir a precipícios morais, mas nem por isso estou a recomendar que chamemos o bode de nosso irmão, nem estou a dizer que os termos "bode novo", "bode velho", "montar o bode" tenha aí sua origem histórica, até mesmo por entender que a questão não tem nada a ver se o bode astrológico é preto, branco ou cinza.

Na versão esotérica, o bode é encarado como o representante animal do materialismo, servindo para demonstrar a predominância da matéria sobre o espírito, o lado avesso da espiritualidade, a brutalidade em oposição à afetividade humana. Com este sentido é que pode ter sido inserido na estrela de cinco pontas, também chamada de Pentagrama Esotérico, Pentalfa Gnóstica, Estrela de Davi e Estrela Flamígera, o correspondente que simboliza o companheiro maçom em sua escalada rumo ao topo da Escada de Jacob. Também podemos apresentar o bode como o maçom dominando a matéria, vez que o Pentagrama Esotérico, onde se acha resumida toda a Ciência da Gnosis, expressa o domínio do Espírito sobre os Elementos da Natureza. Podemos, ainda, apresentar o bode como o elemento da natureza que está nos campos, de cabeça ereta e, por andar próximo das montanhas, seria o ser [que não voa], mas que estaria mais perto de Deus. [Há uma parábola antiga, de um homem que queria ver Deus, mas não conseguia e, então, perguntou a um sábio como faria. Deveria ele subir uma montanha? O sábio respondeu que não bastava subir a montanha, pois ainda assim ele não veria Deus, mas, sem dúvida alguma, estaria mais perto dele].

Tomando a parábola como ponto de partida, o bode se encontra no topo da montanha. O topo da montanha é o fim da caminhada, o término da jornada, onde o homem, ao chegar, pode ser até que não tenha visto ou que veja Deus, mas, sem dúvida, estará mais perto dele. E não é sem razão que a Bíblia Sagrada aponta o Monte Sinai como sendo a morada de Deus, ou o local em que Deus repousa. E não é sem razão que Moisés foi arrebatado por Deus no Monte Nebo. Então, por que não olharmos para o bode com outros olhos e procurar enxergar nele uma figura que se encontra no alto das montanhas, cabeça erguida, como o ser que venceu os obstáculos da escalada.

Conclusão. Finalizar é sempre uma tarefa delicada, principalmente quando o artigo não se encerra com a própria conclusão. Entrementes, se tenho que assumir uma posição enquanto articulista e enquanto maçom, reafirmando que o terreno é escorregadio e movediço, mas diante das possibilidades expostas, o entendimento pessoal que esposo, resume-se em dizer que tenho como mais plausível a hipótese de que o bode, enquanto ser representativo dos maçons, veio ter à Ordem associado a Baphomet - a suposta figura de adoração dos templários – e a Tubalcaim, da Legenda Hiramítica do Terceiro Grau e de Graus Filosóficos subsequentes.

Quanto ao tudo mais que foi explicitada, sumarizemos pontualmente. Ponto um. A legenda do bode na Maçonaria não deve ter uma explicação racional e histórica. Ponto dois. O diabo do bode dos maçons pode muito bem não passar de uma criação cultural dos próprios maçons, resultante do fanatismo, do obscurantismo, das perseguições políticas e religiosas. E tornou-se, por isso, algo pitoresco, ficcional e folclórico por natureza. Ponto três. Em nenhuma hipótese o bode-preto dos maçons poderá ser associado a Satã – o Príncipe das Trevas – se é que este realmente existe, existiu ou existirá. Ponto quatro. Por conta de ditos populares, tipo: “montar o bode”, “alimentar o bode”, “pegar o bode pelos chifres”, “bode velho”, “bode novo” e coisas mais que o valha, os Maçons vão continuar enfrentando as crendices populares, o folclore, o fanatismo e as falaciosas assertivas de que fazemos pacto com o demônio. Ponto cinco. Se continuarem a nos associam ao bode preto, pelo menos enquanto a Terra for o centro do conflito, entre Deus, e os anjos de um lado e o Diabo e os demônios do outro. Coitado do bode.

Obras e sítios consultados:

ASLAN, Nicola. Comentários ao Ritual de Aprendiz: Vade-Mecum Iniciático, 2ª ed, Rio de Janeiro: Aubrora, 1977.

ASLAN, Nicola. Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia, Rio de janeiro: Artenova, 1974.

BASTOS, Octaviano de Meneses, Pequena Enciclopédia Maçônica, 2ª Ed., São Paulo: O Malhete, 1952.

CAMINO, Rizardo da. Grande Dicionário Maçônico, Rio de Janeiro: Aurora, 1990.

FLUSSER, Vilém. A História do Diabo, 2ª ed. São Paulo: Annablume, 2006.

KELLY, Henry Ansgar. Satã: uma biografia, 1ª ed, São Paulo: Globo, 2008.

LEVI, Eliphas. Dogma e Ritual de Alta Magia, São Paulo: Madras, 2004.

LINDEKENS, Ben. Os Montadores de Bode, in Revista Planeta nº 33, Rio de Janeiro: Editora Três, junho 1975.

RIBEIRO JÚNIOR, João. A Face Humana do Diabo, São Paulo: Máster Book, 1997.

ROCHA, Luiz Gonzaga da. A Lenda de Hiram, Londrina: A Trolha, 2000.

Luiz Gonzaga da Rocha

 

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