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Política, Economia e Direito
Qua, 28 de Julho de 2010 17:44

KISSINGER SUGERIU QUE OBAMA ADOTE UMA ' ESTRAGÉGIA DE RETIRADA ' DO AFEGANISTÃO, COM ÊNFASE NA RETIRADA, NÃO NA ESTRATÉGIA

Helio P. Leite

28.07.2010


Quando as mortes de soldados ingleses no Afeganistão contabilizaram 300, o Guardian juntou-se às vozes que perguntam “quando isso acaba e como acabará?” Elas são cada vez mais numerosas, segundo o jornal inglês. O novo primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, foi ao Afeganistão não só para confortar as tropas de seu país. Também procurou deixar bem claro que é “impensável” o envio de mais soldados, dos quais é comandante-chefe. O contingente inglês é o segundo maior da coligação com a bandeira da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a aliança militar ocidental. O Afeganistão ficou ao largo da agenda do encontro, em Washington, de Cameron com o presidente Barack Obama, que se vê imprensado internamente. Republicanos, à direita, se insurgem contra a decisão de Obama de iniciar a retirada das tropas americanas em julho de 2011. Estabelecer calendário, segundo eles, pode afetar a moral das tropas. Democratas liberais querem que a retirada comece já. Estão convencidos de que a guerra do Afeganistão é uma guerra perdida e é cruel sacrificar mais vidas em troca do nada. Sentimentos de derrota se fortaleceram com informações de que o próprio governo afegão já não acredita em vitória militar.

Essas informações partiram do ex-chefe do aparato de inteligência do Afeganistão. O ex-secretário de Estado dos Estados Unidos Henry Kissinger, em artigo no Washington Post, previu um colapso potencial do apoio dos americanos à guerra do Afeganistão. Como aconteceu com a guerra do Vietnã. Kissinger conhece muito bem o que se passou entre 1968, com a destruição do governo Johnson, e 1985, quando foi assinado um tratado de paz cujos termos, segundo analistas, em nada se diferenciaram dos que poderiam constar num acerto de contas sete anos antes. Com isso se evitaria milhares de mortes. “Não se pode pedir a soldados que sejam os últimos a morrerem numa guerra sem sentido”, disse no Congresso americano John Kerry, na época ex-oficial de Marinha com serviços prestados no Vietnã e integrante dos Veteranos Contra Guerra. Depois foi candidato presidencial democrata, derrotado por Bush em 2004.

Kissinger sugeriu que Obama adote uma “estratégia de retirada”, com ênfase na retirada, não na estratégia. Novas estatísticas de mortes vão dando a medida da tragédia. Em junho foram mortos no Afeganistão 102 soldados da Otan, 47 americanos. O recorde anterior havia sido verificado em agosto do ano passado, com 76 mortos, muito menos, portanto. A troca de generais americanos no comando da guerra no Afeganistão recebeu muito mais destaque na mídia do que a troca de chefes do aparato de segurança afegão, mas especialistas dizem que essa tem importância maior do que aquela.

O presidente Karzai, do Afeganistão, embora colocado no poder pelos americanos, estaria se preparando para enfrentar situações pós-Estados Unidos. Quanto aos americanos e aliados, continuariam buscando estratégias eficientes a partir de uma visão ocidental que se mostra errada, razão dos azares de uma guerra cada vez mais cruel, sobretudo quanto às mortes de civis inocentes. É investigada agora a matança de mais de 40, envolvendo grande número de crianças. Como, desse jeito, conquistar mentes e corações, espinha dorsal da estratégia que Obama procura colocar em campo?

A queda do espião-chefe afegão, homem de confiança da CIA e do Pentágono, indica claramente que Karzai tenta tomar rumo próprio, ciente de que a guerra não pode mais ser vista sob ângulo ocidental. A solução só seria alcançada por meio de acertos entre potências regionais e etnias. Daí as suspeitas e denúncias de que a inteligência militar do Paquistão teria se oferecido para intermediar conversações do governo afegão com os talibãs, expulsos do poder pelos americanos. Não se trata apenas, segundo a visão de Washington, de punir envolvidos nos atentados de setembro de 2001. Mas também de ambições de instalar na Ásia Central modelos ocidentais de democracia.

Como se explica o comportamento do todo-poderoso ISI, sigla da inteligência militar paquistanesa? As forças armadas do Paquistão recebem ajuda de R$ 1 bilhão por ano dos Estados Unidos. Estiveram ombro a ombro com a CIA na ajuda aos talibãs que, nos anos 70 do século passado, lutaram contra os invasores russos do Afeganistão. Mas agora o Paquistão se sente ameaçado pelo crescimento da Índia, país com o qual já foi inclusive à guerra em razão de disputas de terras na Cachemira. Índia e Paquistão têm arsenais atômicos com a bênção americana. Convencido, tanto quanto Karzai, de que a guerra contra os talibãs está perdida, o Paquistão procura fortalecer-se ajudando a construir no Afeganistão um sistema de poder ajustado aos seus interesses regionais.

Newton Carlos

 

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